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As paredes do quarto são como as grades de uma prisão. Ali tudo vê e tudo se sente. Até a hora derradeira.

Ouço vozes gritando em meu interior, é horripilante! É como se a angustia tomasse para si o direito de sabotar meu íntimo, de exorcismar minha mente, de arruinar-me como um verme que vegeta na imundície de um quarto escuro.

Um último choro, uma última prece. Derramo minhas lágrimas sobre a frieza do solo descorado.

Uma lágrima corre como uma gota de orvalho no ocaso outonal. Seria o choro a liberdade nunca tida? Insânia…
É a derrocada dos fracos, o pesar dos desesperados, a torrente das almas. É a supremacia de Thanatos sobre Eros.

A languidez de meu corpo franzino deu-me trabalho no inferno. A descida é rápida, mas deveras cansativa.

Desci à escuridão avernal e flertei com Perséfone que clamara a volta prometida. Era a perpetuação do desespero estampado em minha ímpia face, ali, destituído de todas as faculdades, amorfo. Mero devaneio? Eu estive lá.
Pedi a ela que me guiasse pelas entranhas do Hades, pedi a ela que me apresentasse à casa. A meu cadafalso…

“Revele-me seus segredos ocultos para que eu possa compreender seus mistérios sagrados”

Não seja tola… As chaves estão bem guardadas e não me sai da cabeça a idéia de que você é uma farsante. Se soubesse como sair dessa, se tivesse as cores, as chaves, minha vida seria um mar de rosas. Desse inferno só saio morto, ou quem sabe destituído da alma que deixarei com prazer no fogo que pulsa nessa escuridão materna.

Escrito por Alexandre Gouveia