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O relógio despertou às 06h49m anunciando que mais um dia havia chegado. Para ele essa era a pior hora do dia, sem dúvida, era. Acordava sempre dez, ou vinte minutos após o tumulto ensurdecedor do relógio, e os pensamentos já lhe passeavam à mente, rápidos, repentinos, sem nexo. Por vezes iam de mãos dadas conjeturando um desatino, ora caminhavam solitários buscando preencher o seu vazio existencial.

Pra ser sincero, tinha pesar em acordar. Ver toda aquela mediocridade, a falsidade, as pessoas. Era melhor continuar dormindo, seus sonhos não eram belos, mas também não eram de tão mal assim… Os anos que precederam a sua angústia mórbida foram vitais para a sua descrença em relação às relações sociais. Para ele foi difícil admitir que amizades fossem supérfluas. Queria dormir, quiçá, para sempre.

De uns tempos pra cá lhe incomodava um maldito gosto de sangue que lhe brotava na boca. Já não bastavam as constantes dores no corpo e as cefaléias? Aquilo era visceral, vinha de dentro, dos pulmões talvez.
Bom, não sabia a origem disto… Assim como também não sabia nada sobre si mesmo.
Ansiava ser outrem, queria viver uma outra vida que não a sua. Finalmente havia se dado conta que de uns anos pra cá nada de novo acontecia em sua vida, eram apenas anos que se passavam sem cor, apenas adições cronológicas num infinito sem sentido.

Queria ser feliz como as outras pessoas, queria amar como as outras pessoas. Para ele a felicidade era algo que estava ao alcance dos ludibriados. Ele não era um desses, mas estava disposto a se enganar por isso.

Afinal de quem era a culpa?

A maldita doença lhe consumiu a centelha de esperança que ainda reluzia ante tantas desilusões. Sua mente obsessiva o levava para lugares remotos no tempo, no mundo. O fazia crer em coisas que ele próprio repudiava. Coisas que ele tinha asco só de pensar…

Por Alexandre Gouveia