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Quisera ele não se preocupar por misérias. Rabiscar absurdos tão tarde da noite era uma preocupação que ele não ansiava ter. Ir para algum lugar idiota com pessoas idiotas depois de uma tarde agradável é algo que ele não desejava (ou não deveria) fazer. Ele realmente não queria estar definhando por coisas tão pequenas. Mas sentia que estava. Chegou à conclusão que as coisas não estavam mais fazendo o mínimo sentido, sua vida não tinha sentido. Deu de cara com o grande baque da pós-adolescência: a realidade, nua e crua. As questões que povoavam a sua mente eram muitas… Como poderia querer estar com alguém, amar alguém, se ele mesmo não sabia o que lhe fazia lutar pelo instinto de sobrevivência? Como poderia querer que uma pessoa se apaixonasse por ele se ele não gostava de si mesmo? Isso tudo ele sabia. Seria muito egoísmo de sua parte. Viver em função das pessoas ao seu redor era algo que lhe causava certa repugnância. Mesmo que não fosse, ele sentia que devia algo a alguém. E sentia medo por isso. Este era o combustível da sua não-existência, da sua falta de significado. Ele não tinha significado.

Escrito por Alexandre Gouveia

O relógio despertou às 06h49m anunciando que mais um dia havia chegado. Para ele essa era a pior hora do dia, sem dúvida, era. Acordava sempre dez, ou vinte minutos após o tumulto ensurdecedor do relógio, e os pensamentos já lhe passeavam à mente, rápidos, repentinos, sem nexo. Por vezes iam de mãos dadas conjeturando um desatino, ora caminhavam solitários buscando preencher o seu vazio existencial.

Pra ser sincero, tinha pesar em acordar. Ver toda aquela mediocridade, a falsidade, as pessoas. Era melhor continuar dormindo, seus sonhos não eram belos, mas também não eram de tão mal assim… Os anos que precederam a sua angústia mórbida foram vitais para a sua descrença em relação às relações sociais. Para ele foi difícil admitir que amizades fossem supérfluas. Queria dormir, quiçá, para sempre.

De uns tempos pra cá lhe incomodava um maldito gosto de sangue que lhe brotava na boca. Já não bastavam as constantes dores no corpo e as cefaléias? Aquilo era visceral, vinha de dentro, dos pulmões talvez.
Bom, não sabia a origem disto… Assim como também não sabia nada sobre si mesmo.
Ansiava ser outrem, queria viver uma outra vida que não a sua. Finalmente havia se dado conta que de uns anos pra cá nada de novo acontecia em sua vida, eram apenas anos que se passavam sem cor, apenas adições cronológicas num infinito sem sentido.

Queria ser feliz como as outras pessoas, queria amar como as outras pessoas. Para ele a felicidade era algo que estava ao alcance dos ludibriados. Ele não era um desses, mas estava disposto a se enganar por isso.

Afinal de quem era a culpa?

A maldita doença lhe consumiu a centelha de esperança que ainda reluzia ante tantas desilusões. Sua mente obsessiva o levava para lugares remotos no tempo, no mundo. O fazia crer em coisas que ele próprio repudiava. Coisas que ele tinha asco só de pensar…

Por Alexandre Gouveia