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Acordou assustado com um barulho que parecia lhe incomodar, afinal àquela hora da manhã o sono era tão saboroso… Maldito despertador! Escutar aquela lamúria logo de manhã era desesperador, pra não dizer angustiante. Todo dia seguia religiosamente aquela tarefa.Ainda deitado na cama sentiu o perfume adocicado do café que sua mãe acabara de fazer. Com muito pesar se levantou após alguns berros e batidas à porta do quarto. Os olhos estavam enegrecidos pela noite mal dormida e sua boca cheirava à nicotina e álcool da fatídica noite passada. Não queria trabalhar. Não queria! Odiava aquele lugar, assim como também todos que nele ‘habitavam’. A mesquinharia, os papos-furados, as maledicências, tudo naqueles últimos meses lhe deixavam amofinado. Sentia pesar pelos outros. No fundo era uma criatura admirável, a ponto de sentir pelos outros o que não sentia por si próprio.

Abluiu-se e arranjou-se como pôde, não tinha muitas opções: uma camisa amarelenta, um jeans surrado e mal cortado e uma botina com a sola sofrida…
No caminho em meio a bocejos conjeturava sobre o que faria se fosse uma pessoa normal. Talvez tivesse amigos, talvez fosse uma pessoa mais feliz. Para ele o vento lhe soprava amizades à ventura e as levava do mesmo jeito que as trazia. Aprendeu o valor de uma verdadeira amizade, mas ainda tinha dúvidas sobre sua existência.

Vivia às voltas com um pensamento. A garota não lhe saía da cabeça e ela era o que ele mais queria naquele momento. Aquela tez cálida era tépida como uma noite agradável. Sua alegria às vezes chegava a contagiá-lo. Queria estar perto, queria tê-la em seus braços, possuí-la como se fossem estes os últimos dias de sua vida. Idealizava sua boca como os gregos idealizavam o amor na figura de Afrodite. Sentia medo.

A cada passo sua ansiedade aumentava. Sua mão transpirava e a vontade de voltar pra casa era latente. Um belo cobertor e um travesseiro macio era tudo o que ele queria nas atuais conjunturas. Decidiu encarar. Sua face remetia à brancura esquálida de um quadro não pintado. Precisava de cores! Cores… Apenas cores, para avivar sua vida em preto e branco. Enfim, mais um dia de trabalho.

Escrito por Alexandre Gouveia