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As paredes do quarto são como as grades de uma prisão. Ali tudo vê e tudo se sente. Até a hora derradeira.
Ouço vozes gritando em meu interior, é horripilante! É como se a angustia tomasse para si o direito de sabotar meu íntimo, de exorcismar minha mente, de arruinar-me como um verme que vegeta na imundície de um quarto escuro.
Um último choro, uma última prece. Derramo minhas lágrimas sobre a frieza do solo descorado.
Uma lágrima corre como uma gota de orvalho no ocaso outonal. Seria o choro a liberdade nunca tida? Insânia…
É a derrocada dos fracos, o pesar dos desesperados, a torrente das almas. É a supremacia de Thanatos sobre Eros.
A languidez de meu corpo franzino deu-me trabalho no inferno. A descida é rápida, mas deveras cansativa.
Desci à escuridão avernal e flertei com Perséfone que clamara a volta prometida. Era a perpetuação do desespero estampado em minha ímpia face, ali, destituído de todas as faculdades, amorfo. Mero devaneio? Eu estive lá.
Pedi a ela que me guiasse pelas entranhas do Hades, pedi a ela que me apresentasse à casa. A meu cadafalso…
“Revele-me seus segredos ocultos para que eu possa compreender seus mistérios sagrados”
Não seja tola… As chaves estão bem guardadas e não me sai da cabeça a idéia de que você é uma farsante. Se soubesse como sair dessa, se tivesse as cores, as chaves, minha vida seria um mar de rosas. Desse inferno só saio morto, ou quem sabe destituído da alma que deixarei com prazer no fogo que pulsa nessa escuridão materna.
Escrito por Alexandre Gouveia
Meu coração se parte
É quase um desespero carnal
Ele é ávido, pulsa apressado.
Quer meu sangue, minha vida.
É contradição pura
Traz no cerne de sua existência
A castidade e a iniqüidade
A bondade e a malícia
È devorador dos meus anseios
Voraz e determinado
Está sempre à procura de algo
Decerto é ela quem ele quer
A suavidade de seus lábios
A sinuosidade de seus passos
A silhueta de seu corpo
Ao desejá-la, se corrói.
Ao amá-la, me destrói.
Quem lhe dera pudesse dizer
Do mais intimo do seu ser
No âmago da sua inocência
O quanto ela lhe faz bem.
Escrito por Alexandre Gouveia
Acordou assustado com um barulho que parecia lhe incomodar, afinal àquela hora da manhã o sono era tão saboroso… Maldito despertador! Escutar aquela lamúria logo de manhã era desesperador, pra não dizer angustiante. Todo dia seguia religiosamente aquela tarefa.Ainda deitado na cama sentiu o perfume adocicado do café que sua mãe acabara de fazer. Com muito pesar se levantou após alguns berros e batidas à porta do quarto. Os olhos estavam enegrecidos pela noite mal dormida e sua boca cheirava à nicotina e álcool da fatídica noite passada. Não queria trabalhar. Não queria! Odiava aquele lugar, assim como também todos que nele ‘habitavam’. A mesquinharia, os papos-furados, as maledicências, tudo naqueles últimos meses lhe deixavam amofinado. Sentia pesar pelos outros. No fundo era uma criatura admirável, a ponto de sentir pelos outros o que não sentia por si próprio.
Abluiu-se e arranjou-se como pôde, não tinha muitas opções: uma camisa amarelenta, um jeans surrado e mal cortado e uma botina com a sola sofrida…
No caminho em meio a bocejos conjeturava sobre o que faria se fosse uma pessoa normal. Talvez tivesse amigos, talvez fosse uma pessoa mais feliz. Para ele o vento lhe soprava amizades à ventura e as levava do mesmo jeito que as trazia. Aprendeu o valor de uma verdadeira amizade, mas ainda tinha dúvidas sobre sua existência.
Vivia às voltas com um pensamento. A garota não lhe saía da cabeça e ela era o que ele mais queria naquele momento. Aquela tez cálida era tépida como uma noite agradável. Sua alegria às vezes chegava a contagiá-lo. Queria estar perto, queria tê-la em seus braços, possuí-la como se fossem estes os últimos dias de sua vida. Idealizava sua boca como os gregos idealizavam o amor na figura de Afrodite. Sentia medo.
A cada passo sua ansiedade aumentava. Sua mão transpirava e a vontade de voltar pra casa era latente. Um belo cobertor e um travesseiro macio era tudo o que ele queria nas atuais conjunturas. Decidiu encarar. Sua face remetia à brancura esquálida de um quadro não pintado. Precisava de cores! Cores… Apenas cores, para avivar sua vida em preto e branco. Enfim, mais um dia de trabalho.
Escrito por Alexandre Gouveia

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