Já é tarde. As janelas fechadas lhe indicam que o céu já enegreceu e a temperatura tornou-se amena. Sente-se bem por um instante ao lembrar dos sonhos que ainda lhe proporcionam uma centelha de esperança. Mulheres nuas, uma turnê européia. A vida desregrada e ‘non-sense’ que todo mortal pediu a “Deus”. O sorriso estampado em sua magra face transparece o êxtase ao imaginar um dia sem seu modesto ganha-pão. As preocupações diárias diluídas em um copo de conhaque, a fétida angústia aspirada sem pesar às oito horas da manhã de uma segunda-feira!

Com o passar das horas sua esperança esvai-se em tragadas contínuas em seu cigarro. Sua face pálida reflete a agonia ao voltar de seu estado de torpor. Discorre durante alguns minutos sobre a possibilidade de ficar. Desiste. Talvez seja forte demais para largar tudo para trás. Sente o peso de seu corpo aumentar abruptamente e experimenta a fadiga causada pela sua mórbida ansiedade. Na sua mente surgem imagens dispersas, abstratas ao ponto de fazê-lo acreditar em sua demência.

O relógio marca meia-noite. Lembra das noites mal-dormidas dos últimos anos e sabe que esta não será diferente. As paredes parecem querer engoli-lo. Os espelhos refletem a natureza morta. Precisa descansar. Algo não está bem…

Escrito por Alexandre Gouveia