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Talvez a raiva que ele sente pelo mundo seja momentânea, nem sabe se isso pode ser chamado de raiva. Tem raiva de tudo que vê, talvez sem motivo, ou pra ele um motivo mais do que suficiente para odiá-lo ainda mais.

Acabou de voltar da rua. Ficou possesso, a imagem dela lhe trouxe lembranças não agradáveis do que não presenciara, e nem gostaria de tê-lo feito, diga-se de passagem. Essas reminiscências lhe provocam acessos irremediáveis de fúria.

Momentânea ou não talvez ele precise realmente consumi-la, lhe faz bem e… Olha! Já passou. Não. Passou?

 Escrito por Alexandre

Você fica questionando uma coisa ou outra, mas a verdade é uma só: você sempre irá sentir ódio!

Fico tentando imaginar se realmente existe algo de bom na vida. A minha vontade, é de acreditar que tudo que faço não vale a pena — pelo menos foram as circunstâncias que me mostraram isso…

Doçuras, doçuras, estou apertando os dentes e o instrumento em minha mão que me permite escrever esta miséria. Deleito-me com a minha miséria, é tão bom… Eu sou tão desprezível que chega a ser engraçado, mas de um humor negro: daqueles que você imagina seu rosto pálido com a barba por fazer, com um riso atormentado, e com os olhos cansados cheios de lágrimas por dias e dias sem dormir.

A mão formiga, sabe? As dores de cabeça são freqüentes, sabe? É tão bom… Ridicularizar tudo, até, a, mim, mesmo. É, tudo, tão, bom…

Tédio! Irei matar as flores que não me dão as costas, pois nada tenho a oferecer. Calem a boca! Calem a boca! Vamos combinar o seguinte: quando eu estiver passando — por acaso — perto de vocês, por favor, dêem as costas para mim, pois sua beleza nada significa para mim.

Oh! Tão modesto e quietinho esse rapaz! Cujos olhos cansados refletem aquilo que não se pode ter: felicidade! Felicidade! Tão almejada quanto os livros que você não pode ter, tão almejada quanto a fina pele de uma bela mulher… Dane-se! Suas palavras nada significam para mim, seu burro! Ignorante! Você não é nenhum pouco melhor do que eu! Seu medíocre idiota! …o quê? Mundo? Dando as costas pra você? Não se preocupe, pois não há nada a perder…

Dirias que não tem do que se queixar? Dirias que não tem do que se arrepender? Jogaria tudo para o alto? Até-aquele-seu-sonho? Seu medíocre de merda! É tão bom… Ridicularizar tudo, até, a, mim, mesmo, não, é? Pois bem, homenzinho de rosto pálido e com olhos cansados, somos então a miséria do mundo! Aplausos por favor!

Mas as flores… Não: elas não dão as costas para o mundo, — como certos indivíduos de olhos cansados — elas… Apenas murcham na hora certa… Sem reclamar…

Escrito por Diego Carmelo (Bob)

Já é tarde. As janelas fechadas lhe indicam que o céu já enegreceu e a temperatura tornou-se amena. Sente-se bem por um instante ao lembrar dos sonhos que ainda lhe proporcionam uma centelha de esperança. Mulheres nuas, uma turnê européia. A vida desregrada e ‘non-sense’ que todo mortal pediu a “Deus”. O sorriso estampado em sua magra face transparece o êxtase ao imaginar um dia sem seu modesto ganha-pão. As preocupações diárias diluídas em um copo de conhaque, a fétida angústia aspirada sem pesar às oito horas da manhã de uma segunda-feira!

Com o passar das horas sua esperança esvai-se em tragadas contínuas em seu cigarro. Sua face pálida reflete a agonia ao voltar de seu estado de torpor. Discorre durante alguns minutos sobre a possibilidade de ficar. Desiste. Talvez seja forte demais para largar tudo para trás. Sente o peso de seu corpo aumentar abruptamente e experimenta a fadiga causada pela sua mórbida ansiedade. Na sua mente surgem imagens dispersas, abstratas ao ponto de fazê-lo acreditar em sua demência.

O relógio marca meia-noite. Lembra das noites mal-dormidas dos últimos anos e sabe que esta não será diferente. As paredes parecem querer engoli-lo. Os espelhos refletem a natureza morta. Precisa descansar. Algo não está bem…

Escrito por Alexandre Gouveia

Chega a casa com a maldita ressaca de cigarro e bebida alcoólica. Aquele misto de fumaça com desesperança que o invade e o corrói um pouco a cada dia. Se outrora bases de aço, hoje, resquícios de ferrugem e metal retorcido.As dores no estômago já são corriqueiras. A falta de ar e as ânsias são como o prenúncio de dias obscuros. O coração, irriquieto, parece querer saltar para fora do peito. Se sente sujo, não quer. Não quer ser podre.

Os problemas diários, a maldita ansiedade que o tornou um ser moribundo… Para ele o vício é uma válvula de escape para suas obsessões doentias. Assassinar o cigarro nas atuais conjunturas seria trágico. Homicídio doloso.

Quer sair, mas não sabe pra onde e nem com quem. Talvez seja melhor ficar em casa a suportar o olhar penetrante das pessoas ao seu redor. Reclamar da sorte. É tudo o que resta, é tudo o que lhe interessa. Sente a mudança necessária, mas sente-se incapaz. Sente o vento fresco em sua face. E o sol penetrando sorrateiramente seus poros lhe fazendo transpirar.

Sua rotina é uma luta diária contra os pensamentos. Eles são insistentes, intrusivos. Invadem, destroem e mutilam aquilo que chamam de ‘Ego’. Não importa onde está, a persistência e repetitividade desses eventos é algo que foge à sua compreensão. Não sabe mais quem é, não sabe quem foi (se um dia foi) e não sabe o que faz. Um fantoche. Apenas um fantoche de sua mente.

Escrito por Alexandre Gouveia