Havia dormido a tarde toda. O sol do meio-dia lhe causou certo torpor, um cansaço físico que lhe consumiu o que restava da energia pós-trabalho. Trabalho duro. Não o reconheciam, mas ele sabia que era um batalhador. Não apenas por sempre ter ganhado o seu próprio dinheiro, mas por lidar assustadoramente bem com suas intempéries mentais e ter jogo de cintura pra não surtar a qualquer ‘gentileza’ de um estranho qualquer.
Sempre ao acordar sentia algo pesado, parecia chumbo, mas vinha de algum lugar estranho. Um cigarro. A vontade de parar era imensa, mas por mais uma vez ele se rendia àquele vício. Àquele objeto incandescente devia muitas coisas: dores no corpo, náusea, um relacionamento às avessas… Em alguns momentos lho trazia tranqüilidade, noutros lhe jorrava ansiedade, que ávido bebia em goladas rápidas, como se fosse uma dose daquele uísque barato.
Levantava sempre apressado e nessa tarde não foi diferente. Escovou os dentes, ligou o som e começou a pensar no que poderia fazer para mudar os acontecimentos da sua vida, que, diga-se de passagem, não eram poucos. Havia tempos que pensava em mudar, era uma vontade constante que perseguia os seus dias, e que nas noites mais escuras não o deixava ter um sono tão tranqüilo quanto gostaria de ter.
Até podia não parecer, mas era um ser apaixonado. Apaixonado pela arte, pelas pessoas que o faziam querer pensar em algo melhor pra si, pelas manhãs de sol, pelas noites de luar e por tudo aquilo que nos momentos mais difíceis lhe colocavam um belo sorriso no rosto. Só sentia medo de se apaixonar por si mesmo. De tempos pra cá cultivava essa vontade, uma vontade que brotava lá de dentro e que aos poucos ganhava as formas de uma fênix. Queria amar a si próprio, e lutaria com todas as suas forças pra que isso acontecesse.
Saiu, meio a esmo, como fazia quase todas as tardes. Foi parar num canto que se sentia muito bem. Apesar de se sentir ansioso aonde quer que estivesse, ali ele estava ‘em casa’. O boteco era pequeno, uma casinha em meio ao turbilhão de concreto que se erguia ao seu redor. De lá do chão podia ver o abutre que habitava o arranha-céu de uma obra próxima há muito tempo. Tinha a impressão de que ele observava tudo que acontecia lá em baixo, parecia ser um observador nato.
Deve ter visto o momento em que ele e o velho começaram a conversar com grande entusiasmo. O maestro era um homem vivido. Devia ter lá seus sessenta e poucos anos de estrada, era exímio violinista e falava não menos que dez idiomas fluentemente. Mas era um boêmio, adorava rodas de bar, jogar conversa fora e tomar os seus pileques. Contava seus feitos do passado com orgulho e vivia as voltas com os livros debaixo do braço. Um de seus passatempos prediletos era dar aulas de inglês para os fregueses do bar, principalmente as gírias e xingamentos…
Conversavam sobre Mozart, Bach, Beethoven… E todas as vezes que falava sobre o seu mestre, chorava discretamente. O jovem sentia a lágrima naquelas pálpebras ralas, e a via escorrer pelos vincos do rosto que o tempo tratara de dar àquela velha figura.
> continua…
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