Ah, olhos negros…
Olhos da cor da noite
Fecho-me para tudo, menos para ti
Mesmo num instante insólito
O seu desenrolar me encanta
É só me olhar e pronto! Meu coração sorri

Ah, olhos negros…
Amenos como o mar
Sinto-me cada dia mais perto
E mesmo que me peça
Sua beleza eu não explico
Deixo que venha me buscar

 Ah, Olhos Negros…
Roubara-me o rumo!
Partira-me em pedaços!
Ver-te assim, tão bela
Causa-me espanto e alegria
Vivo por que vives

 Ah, olhos negros…
Que um dia me fizeram mais feliz
Que um dia me fizeram ir mais além
Que um dia por algum instante
Fizeram-me esquecer de tudo
Quiçá, até mesmo de mim

Alexandre Gouveia.

Quisera ele não se preocupar por misérias. Rabiscar absurdos tão tarde da noite era uma preocupação que ele não ansiava ter. Ir para algum lugar idiota com pessoas idiotas depois de uma tarde agradável é algo que ele não desejava (ou não deveria) fazer. Ele realmente não queria estar definhando por coisas tão pequenas. Mas sentia que estava. Chegou à conclusão que as coisas não estavam mais fazendo o mínimo sentido, sua vida não tinha sentido. Deu de cara com o grande baque da pós-adolescência: a realidade, nua e crua. As questões que povoavam a sua mente eram muitas… Como poderia querer estar com alguém, amar alguém, se ele mesmo não sabia o que lhe fazia lutar pelo instinto de sobrevivência? Como poderia querer que uma pessoa se apaixonasse por ele se ele não gostava de si mesmo? Isso tudo ele sabia. Seria muito egoísmo de sua parte. Viver em função das pessoas ao seu redor era algo que lhe causava certa repugnância. Mesmo que não fosse, ele sentia que devia algo a alguém. E sentia medo por isso. Este era o combustível da sua não-existência, da sua falta de significado. Ele não tinha significado.

Escrito por Alexandre Gouveia

O relógio despertou às 06h49m anunciando que mais um dia havia chegado. Para ele essa era a pior hora do dia, sem dúvida, era. Acordava sempre dez, ou vinte minutos após o tumulto ensurdecedor do relógio, e os pensamentos já lhe passeavam à mente, rápidos, repentinos, sem nexo. Por vezes iam de mãos dadas conjeturando um desatino, ora caminhavam solitários buscando preencher o seu vazio existencial.

Pra ser sincero, tinha pesar em acordar. Ver toda aquela mediocridade, a falsidade, as pessoas. Era melhor continuar dormindo, seus sonhos não eram belos, mas também não eram de tão mal assim… Os anos que precederam a sua angústia mórbida foram vitais para a sua descrença em relação às relações sociais. Para ele foi difícil admitir que amizades fossem supérfluas. Queria dormir, quiçá, para sempre.

De uns tempos pra cá lhe incomodava um maldito gosto de sangue que lhe brotava na boca. Já não bastavam as constantes dores no corpo e as cefaléias? Aquilo era visceral, vinha de dentro, dos pulmões talvez.
Bom, não sabia a origem disto… Assim como também não sabia nada sobre si mesmo.
Ansiava ser outrem, queria viver uma outra vida que não a sua. Finalmente havia se dado conta que de uns anos pra cá nada de novo acontecia em sua vida, eram apenas anos que se passavam sem cor, apenas adições cronológicas num infinito sem sentido.

Queria ser feliz como as outras pessoas, queria amar como as outras pessoas. Para ele a felicidade era algo que estava ao alcance dos ludibriados. Ele não era um desses, mas estava disposto a se enganar por isso.

Afinal de quem era a culpa?

A maldita doença lhe consumiu a centelha de esperança que ainda reluzia ante tantas desilusões. Sua mente obsessiva o levava para lugares remotos no tempo, no mundo. O fazia crer em coisas que ele próprio repudiava. Coisas que ele tinha asco só de pensar…

Por Alexandre Gouveia

Assim eu sou
Ora louco, ora angustiado
Ora estranho, ora pateticamente normal.
Alegria que contagia
Ou o amargo que arrepia
Eu sou um pouco de tudo
Também um pedaço do nada
Gosto de ser assim
Um misto de indecisão e mistério
Ao mesmo tempo que sei, não sei
Ao mesmo tempo que penso, não existo.
Eu sou assim
Sarcástico, irônico
Sou do contra, sou opinião
Minha crença sou eu
Quer queiram, quer não
Curto a minha diferença
E admito a minha inteligência
Eu sou assim
Um alguém que sente
E que também ama loucamente
Para mim não existem meias palavras
Minha bondade vem de dentro
Meu coração é meu documento
Posso ser quem eu quiser
Mas de que adianta? Eu não seria EU, seria outro
Um dia fogo, um dia água
Um dia céu, o outro inferno
É da inconstância que me faço
É no amor que me enlaço
Talvez eu não lhe pertença
Talvez nem deva pertencer
Eu me amo exatamente assim
E sendo assim, e somente assim
Não se zangue quando souber
Que não mudarei por ninguém.

Escrito por Alexandre Gouveia

As paredes do quarto são como as grades de uma prisão. Ali tudo vê e tudo se sente. Até a hora derradeira.

Ouço vozes gritando em meu interior, é horripilante! É como se a angustia tomasse para si o direito de sabotar meu íntimo, de exorcismar minha mente, de arruinar-me como um verme que vegeta na imundície de um quarto escuro.

Um último choro, uma última prece. Derramo minhas lágrimas sobre a frieza do solo descorado.

Uma lágrima corre como uma gota de orvalho no ocaso outonal. Seria o choro a liberdade nunca tida? Insânia…
É a derrocada dos fracos, o pesar dos desesperados, a torrente das almas. É a supremacia de Thanatos sobre Eros.

A languidez de meu corpo franzino deu-me trabalho no inferno. A descida é rápida, mas deveras cansativa.

Desci à escuridão avernal e flertei com Perséfone que clamara a volta prometida. Era a perpetuação do desespero estampado em minha ímpia face, ali, destituído de todas as faculdades, amorfo. Mero devaneio? Eu estive lá.
Pedi a ela que me guiasse pelas entranhas do Hades, pedi a ela que me apresentasse à casa. A meu cadafalso…

“Revele-me seus segredos ocultos para que eu possa compreender seus mistérios sagrados”

Não seja tola… As chaves estão bem guardadas e não me sai da cabeça a idéia de que você é uma farsante. Se soubesse como sair dessa, se tivesse as cores, as chaves, minha vida seria um mar de rosas. Desse inferno só saio morto, ou quem sabe destituído da alma que deixarei com prazer no fogo que pulsa nessa escuridão materna.

Escrito por Alexandre Gouveia

Meu coração se parte
É quase um desespero carnal
Ele é ávido, pulsa apressado.
Quer meu sangue, minha vida.

É contradição pura
Traz no cerne de sua existência
A castidade e a iniqüidade
A bondade e a malícia

È devorador dos meus anseios
Voraz e determinado
Está sempre à procura de algo
Decerto é ela quem ele quer

A suavidade de seus lábios
A sinuosidade de seus passos
A silhueta de seu corpo
Ao desejá-la, se corrói.
Ao amá-la, me destrói.

Quem lhe dera pudesse dizer
Do mais intimo do seu ser
No âmago da sua inocência
O quanto ela lhe faz bem.

Escrito por Alexandre Gouveia

Acordou assustado com um barulho que parecia lhe incomodar, afinal àquela hora da manhã o sono era tão saboroso… Maldito despertador! Escutar aquela lamúria logo de manhã era desesperador, pra não dizer angustiante. Todo dia seguia religiosamente aquela tarefa.Ainda deitado na cama sentiu o perfume adocicado do café que sua mãe acabara de fazer. Com muito pesar se levantou após alguns berros e batidas à porta do quarto. Os olhos estavam enegrecidos pela noite mal dormida e sua boca cheirava à nicotina e álcool da fatídica noite passada. Não queria trabalhar. Não queria! Odiava aquele lugar, assim como também todos que nele ‘habitavam’. A mesquinharia, os papos-furados, as maledicências, tudo naqueles últimos meses lhe deixavam amofinado. Sentia pesar pelos outros. No fundo era uma criatura admirável, a ponto de sentir pelos outros o que não sentia por si próprio.

Abluiu-se e arranjou-se como pôde, não tinha muitas opções: uma camisa amarelenta, um jeans surrado e mal cortado e uma botina com a sola sofrida…
No caminho em meio a bocejos conjeturava sobre o que faria se fosse uma pessoa normal. Talvez tivesse amigos, talvez fosse uma pessoa mais feliz. Para ele o vento lhe soprava amizades à ventura e as levava do mesmo jeito que as trazia. Aprendeu o valor de uma verdadeira amizade, mas ainda tinha dúvidas sobre sua existência.

Vivia às voltas com um pensamento. A garota não lhe saía da cabeça e ela era o que ele mais queria naquele momento. Aquela tez cálida era tépida como uma noite agradável. Sua alegria às vezes chegava a contagiá-lo. Queria estar perto, queria tê-la em seus braços, possuí-la como se fossem estes os últimos dias de sua vida. Idealizava sua boca como os gregos idealizavam o amor na figura de Afrodite. Sentia medo.

A cada passo sua ansiedade aumentava. Sua mão transpirava e a vontade de voltar pra casa era latente. Um belo cobertor e um travesseiro macio era tudo o que ele queria nas atuais conjunturas. Decidiu encarar. Sua face remetia à brancura esquálida de um quadro não pintado. Precisava de cores! Cores… Apenas cores, para avivar sua vida em preto e branco. Enfim, mais um dia de trabalho.

Escrito por Alexandre Gouveia

Talvez a raiva que ele sente pelo mundo seja momentânea, nem sabe se isso pode ser chamado de raiva. Tem raiva de tudo que vê, talvez sem motivo, ou pra ele um motivo mais do que suficiente para odiá-lo ainda mais.

Acabou de voltar da rua. Ficou possesso, a imagem dela lhe trouxe lembranças não agradáveis do que não presenciara, e nem gostaria de tê-lo feito, diga-se de passagem. Essas reminiscências lhe provocam acessos irremediáveis de fúria.

Momentânea ou não talvez ele precise realmente consumi-la, lhe faz bem e… Olha! Já passou. Não. Passou?

 Escrito por Alexandre

Você fica questionando uma coisa ou outra, mas a verdade é uma só: você sempre irá sentir ódio!

Fico tentando imaginar se realmente existe algo de bom na vida. A minha vontade, é de acreditar que tudo que faço não vale a pena — pelo menos foram as circunstâncias que me mostraram isso…

Doçuras, doçuras, estou apertando os dentes e o instrumento em minha mão que me permite escrever esta miséria. Deleito-me com a minha miséria, é tão bom… Eu sou tão desprezível que chega a ser engraçado, mas de um humor negro: daqueles que você imagina seu rosto pálido com a barba por fazer, com um riso atormentado, e com os olhos cansados cheios de lágrimas por dias e dias sem dormir.

A mão formiga, sabe? As dores de cabeça são freqüentes, sabe? É tão bom… Ridicularizar tudo, até, a, mim, mesmo. É, tudo, tão, bom…

Tédio! Irei matar as flores que não me dão as costas, pois nada tenho a oferecer. Calem a boca! Calem a boca! Vamos combinar o seguinte: quando eu estiver passando — por acaso — perto de vocês, por favor, dêem as costas para mim, pois sua beleza nada significa para mim.

Oh! Tão modesto e quietinho esse rapaz! Cujos olhos cansados refletem aquilo que não se pode ter: felicidade! Felicidade! Tão almejada quanto os livros que você não pode ter, tão almejada quanto a fina pele de uma bela mulher… Dane-se! Suas palavras nada significam para mim, seu burro! Ignorante! Você não é nenhum pouco melhor do que eu! Seu medíocre idiota! …o quê? Mundo? Dando as costas pra você? Não se preocupe, pois não há nada a perder…

Dirias que não tem do que se queixar? Dirias que não tem do que se arrepender? Jogaria tudo para o alto? Até-aquele-seu-sonho? Seu medíocre de merda! É tão bom… Ridicularizar tudo, até, a, mim, mesmo, não, é? Pois bem, homenzinho de rosto pálido e com olhos cansados, somos então a miséria do mundo! Aplausos por favor!

Mas as flores… Não: elas não dão as costas para o mundo, — como certos indivíduos de olhos cansados — elas… Apenas murcham na hora certa… Sem reclamar…

Escrito por Diego Carmelo (Bob)

Já é tarde. As janelas fechadas lhe indicam que o céu já enegreceu e a temperatura tornou-se amena. Sente-se bem por um instante ao lembrar dos sonhos que ainda lhe proporcionam uma centelha de esperança. Mulheres nuas, uma turnê européia. A vida desregrada e ‘non-sense’ que todo mortal pediu a “Deus”. O sorriso estampado em sua magra face transparece o êxtase ao imaginar um dia sem seu modesto ganha-pão. As preocupações diárias diluídas em um copo de conhaque, a fétida angústia aspirada sem pesar às oito horas da manhã de uma segunda-feira!

Com o passar das horas sua esperança esvai-se em tragadas contínuas em seu cigarro. Sua face pálida reflete a agonia ao voltar de seu estado de torpor. Discorre durante alguns minutos sobre a possibilidade de ficar. Desiste. Talvez seja forte demais para largar tudo para trás. Sente o peso de seu corpo aumentar abruptamente e experimenta a fadiga causada pela sua mórbida ansiedade. Na sua mente surgem imagens dispersas, abstratas ao ponto de fazê-lo acreditar em sua demência.

O relógio marca meia-noite. Lembra das noites mal-dormidas dos últimos anos e sabe que esta não será diferente. As paredes parecem querer engoli-lo. Os espelhos refletem a natureza morta. Precisa descansar. Algo não está bem…

Escrito por Alexandre Gouveia